Review bom é aquele que tem piadinha infame no título. Leia até o fim, tem cena pós-créditos!
Lançado em 2014, La Granja, sempre figurou entre um dos mais apreciados entre os jogadores solo, talvez muito pela fama de que ele era um jogo que tinha muitos elementos dos do Uwe Rosenberg e do Stefan Feld juntos, ou seja, era um jogo de fazendinha com cara de Feld. Ele ficou entre impressões durante um bom tempo, até ter saído a atual, que permitiu sua chegada no Brasil pela Across the Board. Consegui a minha cópia, uma da Stronghold Games, no finalzinho de 2017 e, de lá para cá, joguei várias, várias partidas solo dele. É um jogo que acerta em quase todas as minhas preferências. De cara já adianto que acho o jogo bom. Seria isso, no entanto, uma preferência minha? Ele de fato é bom?
Em La Granja, os jogadores controlam pequenas fazendas na vila de Esporles, na ilha de Mallorca, na costa sul da Espanha. Ao longo dos seis turnos do jogo, eles desenvolvem suas fazendas e entregam mercadorias no mercado central da vila com o objetivo de adquirirem pontos de vitória. A despeito da descrição, La Granja é um eurogame clássico com um tema bem implementado (ainda que muito de leve), que faz uso de dados, mas com pouca influência de sorte e com pouco conflito direto entre os jogadores. Muito mais do que um jogo estratégico, La Granja é um jogo tático. Você precisa enxergar o melhor caminho para pontuar considerando-se as opções que lhe são dadas pelas cartas, pelos dados e, claro, seus oponentes. Aliás, as cartas desse jogo tem múltiplas funções, podendo ser utilizadas como extensões para sua fazenda (campos ou chiqueiros), auxiliares ou encomendas a serem entregues no mercados. Esse ponto, por si só, abrilhanta o design e proporciona ótimas escolhas na partida. É algo que me lembra demais um outro jogo que adoro, o
Oh My Goods!
Suas regras são de fácil compreensão e o manual é excelente, com muitos exemplos gráficos. O jogo vem com um player-aid que ajuda muito no decorrer da partida e as múltiplas fases de cada uma das etapas do turno de jogo. É um euro médio, com bons componentes, bom gameplay, que diverte bastante, sendo uma ótima opção de próximo passo para aquele jogador que começou no hobby há pouco tempo e gostaria de se aprofundar um pouco mais. Logicamente que isso que estou falando é a partir da minha cópia, da Stronghold, mas, pelo que vi em vídeos e fotos, a da Across the Board parece não ter deixado nada a desejar em termos de qualidade do material, não sei quanto à tradução.
Para a compreensão de minha avaliação do modo solo de La Granja é preciso que você conheça o jogo um pouco. Se não o jogou, recomendo que assista um dos ótimos vídeos que estão linkados na sessão de vídeos do jogo.
Setup inicial do modo solo. Embora isso não esteja no manual, costumo utilizar os marcadores de uma cor que não está sendo usada para bloquear os espaços que não são utilizados no jogo para 2 jogadores na periferia do tabuleiro. Não precisa, mas acho bom.
Tabuleiro em close. Reparem os marcadores amarelos, que são os que falei acima. Nessa partida, joguei de azul. O vermelho foi o jogador neutro.
Em close o player board com seus múltiplos espaços. Uma das melhores sacadas desse jogo é a multiplicidade de funções das cartas. Isso, por si só, impõe ótimas decisões.
O modo solo de La Granja é um beat your own score, ou seja, você joga com o objetivo de maximizar sua pontuação. Para simular um pouco a interação entre os jogadores, o modo solo conta com um jogador neutro, cuja função é, basicamente, a disputa por dados na fase de benefícios e a disputa por espaço na fase do mercado. Na fase de benefícios, nos rounds 1 a 3, o jogador neutro escolhe os dados de menor valor disponíveis, sendo que nos rounds 4 a 6, ele passa a escolher os dados de maior valor na oferta. Na fase de mercado, para o jogador neutro sacamos uma carta e verificamos a pontuação de carroça dela, colocando-se um marcador do jogador neutro num espaço de mercado correspondente, sempre optando por aquele espaço capaz de remover o maior número de peças do jogador ou dificultar mais suas jogadas futuras. Adicionalmente, o jogador neutro também disputa a posição de primeiro jogador com o jogador solitário. Para que se mantenha agindo primeiro, o jogador deve atingir ao menos a terceira posição na trilha de sesta. Do contrário, o jogador neutro torna-se o primeiro jogador e passa a escolher os dados antes do jogador e a ocupar as posições no mercado central antes também.
Bom, vamos à avaliação do modo solo de La Granja.
Há algum tempo atrás, o pessoal do Spiel des Djows fez uma ótima
postagem sobre o modo solo do
Clãs da Caledônia e, nos comentários, teci algumas considerações que se aplicam também ao La Granja. Eu não acho o modo solo ruim, de modo algum, tanto que já joguei muitas partidas dele, mas acho que é importante que o enxerguemos à luz do que o jogo multiplayer é capaz de oferecer.
Em primeiro lugar, o modo solo é um beat your own score puro e simples, ou seja, seu objetivo é obter a máxima pontuação possível, comparando-se com seus escores anteriores. Não há, portanto, uma condição de vitória clara. No manual da Ludo Sentinel, em espanhol, há um ranking para as pontuações: < 40 pontos: 1 estrela; 40-54 pontos: 2 estrelas; 55-64 pontos: 3 estrelas; 65-80 pontos: 4 estrelas; > 80 pontos: 5 estrelas.
Como um exercício, imaginemos um outro modo solo cujo review fiz há pouco tempo
aqui no canal, o do
Viticulture Edição Essencial. Nesse caso, o Automa tem uma pontuação de 20 pontos (sem usar
Viticulture: Tuscany Essential Edition, ou 25 pontos usando-a). Você vence o jogo se bater essa marca. Agora remova esse elemento do jogo solo. O Automa não pontua, ele apenas bloqueia os espaços. Tem-se algo muito semelhante ao que temos em La Granja, isto é, um jogo sem uma condição clara de vitória cujo objetivo é maximizar a pontuação. Agora imagine que, para o La Granja, você perde o jogo se não atingir uma determinada pontuação conforme o nível de dificuldade escolhido. Digamos, por exemplo, modo muito fácil - 40 pontos; modo fácil - 50 pontos; modo normal - 60 pontos; modo difícil - 70 pontos; modo muito difícil - 80 pontos. Pronto, temos uma condição de vitória de modo análogo ao que temos em Viticulture.
Posto isso, embora para muitas pessoas a ausência de uma condição de vitória clara possa representar um ponto negativo, para mim não chega a ser. O que me agrada é justamente o desafio de tentar melhorar a minha pontuação em cada partida, ou seja, desvendar o puzzle que o jogo me oferece.
Avancemos para a segunda parte da análise a respeito desse modo solo: a interação entre os jogadores. Ela ocorre de modo semelhante ao que se dá no jogo multiplayer? Aqui, amigos, minha resposta é um sonoro não.
Ainda que seja um quase multiplayer solitaire, nesse jogo, a interação entre os jogadores se dá nos seguintes pontos:
- Na etapa 4 da fase de fazenda, quando os jogadores escolhem entre as fichas de telhado disponíveis na oferta;
- Na fase de benefícios, quando os jogadores escolhem entre os benefícios oferecidos naquela rodada;
- Na fase do transporte, quando os jogadores escolhem o número de entregas e a quantidade de cochilos de seus marcadores, o que terá influência na determinação do primeiro jogador para a rodada seguinte;
- Na fase do transporte, nas entregas, quando os jogadores disputam espaços no mercado central e pontos de vitória e fichas de micronegócio nos edifícios do micronegócio próximo ao mercado central.
Percebam, portanto, que embora a interação seja discreta, ela existe. Vejamos de que forma o jogador neutro se comporta nessas fases:
- Na etapa 4 da fase de fazenda, quando os jogadores escolhem entre as fichas de telhado disponíveis na oferta, apenas o jogador escolhe uma ficha, ou seja, o jogador neutro não compete por ela independentemente se ser o primeiro ou segundo jogador. A ficha restante é descartada e não é utilizada na partida;
- Na fase de benefícios, quando os jogadores escolhem entre os benefícios oferecidos naquela rodada, o jogador neutro escolhe os benefícios de forma previsível (nas rodadas 1 a 3, escolhe do menor para o maior valor e, nas rodadas 4 a 6, do maior para o menor valor);
- Na fase do transporte, quando os jogadores escolhem o número de entregas e a quantidade de cochilos, o jogador neutro não faz entregas e não tem nenhuma quantidade de cochilos. O jogador simplesmente precisa atingir a terceira posição na trilha de sesta para manter-se como primeiro jogador ou ganhar essa vantagem. Isso, portanto, é previsível e facilmente manipulável pelo jogador caso ele se programe para isso;
- Na fase do transporte, quando os jogadores disputam espaços no mercado central e pontos de vitória e fichas de micronegócio nos edifícios do micronegócio próximo ao mercado central, o jogador neutro ignora completamente as fichas e edifícios de micronegócio, o que dá vantagem ao jogador, não apenas pelos (muitos pontos) que podem vir dali, mas das vantagens que essas fichas podem proporcionar.
Dadas essas premissas, parto para minhas conclusões. Da mesma forma do que eu disse na postagem do pessoal do Spiel des Djows sobre o Clans of Caledonia, acho que o modo solo de La Granja não incorpora todos os elementos do jogo multiplayer, mas oferece uma opção de jogabilidade que permite aprender as mecânicas e elementos do jogo de forma simples e agradável, permanecendo como opção para aqueles momentos em que você quer jogá-lo, mas não consegue montar mesa com um grupo. A bem da verdade, esse jogo comporta um automa com muita tranquilidade, tenho ideias sobre o que seria necessário para isso.
Dá para recomendá-lo? Se você não se incomoda com um jogo sem condição de vitória clara, cujo objetivo é maximizar a pontuação, em que nem todos os pontos do jogo multiplayer estão contemplados, mas que oferece uma experiência prazerosa, eu diria que sim. Se, por outro lado, você quer condição de vitória clara e antagonismo real, jogue somente para ter uma noção das regras, mas guarde-o para quando tiver grupo, porquê não vai te agradar. Isso vai muito do que você espera de sua experiência solo. Como disse, para mim, esse jogo é capaz de proporcionar bons momentos, mesmo não sendo uma experiência como aquela que você teria com outros jogadores.
Aspecto final do tabuleiro ao fim de uma partida que joguei. Minha pontuação foi de 65 pontos.
Esse foi o meu playerboard ao final da mesma partida. Tornei-me um poderoso latifundiário.
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E lembre-se: together, we game alone!
Cena pós-créditos:
Estou me animando a fazer um top de jogos solo da 1PGBR como fizemos em 2017. Vou precisar de uma força da galera para divulgar isso e, sobretudo, para estimular a participação do máximo de gente possível. Ainda não tenho os detalhes finais, só queria sondar se vocês se animariam.