Viticulture foi um dos primeiros produtos lançados pela Stonemaier Games através do Kickstarter no já longínquo 2012. Tratava-se de um jogo razoavelmente temático de alocação de trabalhadores, para 2-6 jogadores, que funcionava bem, mas não tinha nenhuma grande novidade estética ou mecânica.
Posteriormente, em 2014, veio a expansão Tuscany, que trouxe elementos como assimetria entre jogadores, novas cartas, um novo tabuleiro, trabalhadores especializados e um Automa, que permitiria o jogo solo. Essa expansão transformou o jogo original para a melhor, acrescentando maior interação entre os jogadores e caminhos estratégicos mais variados. Era composta por 12 expansões divididas em 3 níveis e os jogadores deviam desbloquear as dos níveis mais altos a partir de partidas jogadas nos níveis anteriores. Naquela ocasião foi uma decisão muito apropriada de design, pois esse aspecto modular da expansão permitia aos jogadores a incorporação progressiva de elementos e regras sem que houvesse uma sobrecarga de novas informações de uma só vez. Num paralelo com os tempos atuais, de certa forma isso também é o que o Terraforming Mars faz com suas expansões.
O jogo fez muito sucesso e logo esgotou. Apesar dos insistentes pedidos dos seus consumidores, a Stonemaier Games parecia não querer imprimir novas cópias e passou-se um longo tempo sem novas reimpressões. As edições de colecionador de Viticulture e Tuscany eram vendidas a preço de rins no mercado de usados.
Finalmente veio a notícia de que o jogo seria disponibilizado novamente, mas em uma versão retrabalhada. O Viticulture Essential Edition surgiu como resultado de uma parceria entre a Stonemaier Games e Uwe Rosenberg, inquestionavelmente o criador de alguns dos mais bem sucedidos jogos de alocação de trabalhadores. Essa era uma espécie de edição revisada de Viticulture e Tuscany, que reunia os melhores elementos de ambas. Essa edição essencial foi então expandida por Tuscany Essential Edition, que também trouxe alguns elementos de sua edição original, mas não todos, só o que era considerado imprescindível. Do conjunto de expansões originais de Viticulture e Tuscany, Viticulture Essential Edition tem Propriedades, o Automa, Mamas & Papas, Visitantes Avançados e Novos Visitantes. A expansão Tuscany Essential Edition acrescenta Estruturas, o tabuleiro estendido e os Trabalhadores especiais. As expansões deixadas de fora das edições essenciais foram Arboricultura, Formaggio e Patronage.

Exemplo de setup inicial do Viticulture Essential Edition, utilizando-se somente os componentes da caixa básica.
Exemplo de setup inicial do jogo com os componentes da expansão Tuscany Essential Edition. Note, ao lado do player board, a extensão para as estruturas, cujas cartas ficam no canto superior direito do tabuleiro estendido. No canto inferior direito está o mapa de influência do tabuleiro estendido.
Bom, como esse é um canal de jogos solo, vamos direto ao que interessa: o Automa.
O Morten Monrad Pedersen foi um cara que participou muito ativamente da campanha original de Viticulture na qualidade de apoiador. Foi tão ativo que, para a expansão, propôs a criação do Automa ao Jamey Stegmeier e isso foi incorporado ao jogo! Trata-se de um sistema de regras acompanhado de um deck de 24 cartas que permite que Viticulture seja jogado solo! Diferentemente de muitos eurogames até então, que podiam permitir alguma forma de jogo solitário em que era necessário bater um determinado escore, Viticulture trazia um oponente a ser batido, que comportava-se de forma imprevisível e interferia com as escolhas do jogador.
Antes de falar de como funciona o Automa, vou apertar o botão de fast forward para vermos a história mais adiante.
A parceria entre Morten e a Stonemeier foi tão profícua que Morten criou modos solo para vários outros jogos da editora, fundou uma empresa, a Automa Factory, que depois também trabalharia com empresas como a Lookout (modo solo de Patchwork) e Feuerland Spiele (modo solo de Gaia Project). Morten, além disso, tornou-se uma voz importante na comunidade de jogadores solo no BGG. Tive a oportunidade de entrevistá-lo
aqui para o canal e também fiz questão de traduzir uma série de ótimos artigos dele, a
Automa Approach, na qual ele detalha o processo de concepção de modos solo para jogos competitivos. Vez por outra abordo alguns desses conceitos aqui no canal, de modo que recomendo bastante sua leitura.
Agora o botão de rewind. Voltemos aonde estávamos.
Bom, como disse antes, o Automa é um deck de 24 cartas que permite que Viticulture seja jogado sozinho. Na Essential Edition, ele é compatível tanto com a caixa base quanto com a incorporação da expansão Tuscany. No início de cada estação, o jogador saca uma carta do baralho do Automa e bloqueia com os trabalhadores do Automa os espaços no tabuleiro indicados pela carta para aquela estação, o que impede que aquelas ações sejam usadas, salvo quando se pode usar o Grande Worker. Isso se repete por rodadas até o fim do jogo. O jogador vence se conseguir mais pontos do que o Automa.
Exemplo de carta do deck do Automa.
O Automa tem uma pontuação fixa ao longo do jogo. Quando jogando somente com Viticulture Essential Edition, o Automa tem 20 pontos e, quando incorporando o tabuleiro estendido de Tuscany, 25 pontos. Em Tuscany também temos o mapa de influência, cuja pontuação também é computada na contagem final. Se o jogador não roubar alguns pontos de influência do Automa, são mais 10 pontos para ele nessa situação, o que faz com que o alvo final de pontuação com o tabuleiro estendido seja de 35 pontos.
E qual a avaliação desse Automa?
Este é um modo solo competente, desafiador e fácil de se manipular, que atrapalha pouco a experiência de jogo do jogador solitário porque tem muito pouca manutenção. O Automa não adquire cartas ou recursos, não os consome, não ganha pontos além dos que já tem, apenas disputa os espaços do tabuleiro. Não é fácil vencê-lo. Há opções de se ajustar níveis de dificuldade e de se jogar uma espécie de modo campanha que modifica um pouco o setup, regras e objetivos do jogo original, trazendo muitos novos desafios a jogadores experimentados.
O Automa, todavia, tem também alguns problemas.
Primeiramente, diferentemente de um bot, ele tem um comportamento errático e imprevisível por ser dirigido por exclusivamente por cartas, isto é, não segue nenhuma estratégia. Ele não chega a ser tão imprevisível quanto um rolamento de dados, pois o deck modifica-se ao longo da partida pelo esgotamento das cartas já sacadas, mas ainda assim é difícil de ver as ações se repetindo.
Esse comportamento aleatório, no entanto, não é lá tão aleatório assim. O Automa foi criado e otimizado para o tabuleiro estendido. Quando você analisa a distribuição dos espaços de ação nas cartas do Automa, nota-se duas coisas: a) utilizando-se o tabuleiro estendido, a proporção de cartas que bloqueiam 0, 1 ou 2 ações é idêntica para todas as estações, isto é, para todas as estações, no deck há 6 cartas que não bloqueiam nenhuma ação, 12 cartas que bloqueiam somente 1 ação e outras 6 que bloqueiam 2 ações. Com o tabuleiro pequeno, aquele contido na caixa de Viticultre Essential Edition, as cartas do Automa bloqueiam de 0 a 3 ações por estação, sendo que no verão/primavera, 4 cartas não bloqueiam nenhuma estação, 7 cartas bloqueiam uma ação, 10 cartas bloqueiam duas ações e 3 cartas bloqueiam três ações. No inverno, 2 cartas não bloqueiam nenhuma ação, 9 cartas bloqueiam só uma ação, 12 cartas bloqueiam duas ações e somente uma carta bloqueia três ações. Isso faz com que a probabilidade de o Automa bloquear ações varie mais com o tabuleiro pequeno do que com o tabuleiro estendido. Por outro lado, o número de vezes que o deck é capaz de bloquear cada uma das ações individualmente é mais ou menos o mesmo utilizando-se tanto o tabuleiro pequeno quanto o estendido. Por exemplo, a ação de “Pagar 4 liras para treinar um trabalhador” é ocupada 6 vezes em ambos os tabuleiros.
Continuando, em segundo lugar, por ser otimizado para o tabuleiro estendido, o Automa é muito mais difícil de se bater quando ele é utilizado em comparação com o tabuleiro pequeno. Apesar de Tuscany Essential Edition criar várias novas oportunidades de pontuação e muitos outros caminhos para isso, duas coisas atrapalham bastante: o comportamento mais otimizado do Automa e sua pontuação mais elevada a ser batida. É um desafio muito grande controlar a pontuação do Automa, principalmente por conta do mapa de influência. Certa vez, perguntei justamente isso ao criador do modo solo e, segundo ele, o Automa do tabuleiro estendido era indicado para jogadores experientes que quisessem dificuldade adicional em relação àquela do tabuleiro menor.
Por último, embora o Automa emule o jogo multiplayer, a experiência é um pouco diferente pela forma como sua pontuação se comporta. Ele tem uma pontuação estanque, que não varia e funciona como um alvo a ser atingido. Há opções de ganhos progressivos de pontos ao longo da partida, mas isso gera mais manutenção e acaba no mesmo lugar de sempre. Isso me dá uma sensação parecida com aquela do runaway leader. Um outro ponto é que o jogo multiplayer pode, eventualmente, durar mais de 7 rodadas, o que não acontece em hipótese alguma no solo. Se chegar ao final da sétima com menos pontos que o Automa: game over, amigo. Você perdeu.
Em conclusão, no geral, faço uma avaliação bastante positiva do deck do Automa para o Viticulture Essential Edition. Hoje eu raramente o jogo sem os componentes da expansão Tuscany Essential Edition, que acho imprescindíveis para uma experiência plena. O Automa oferece um desafio razoável quando jogando com o tabuleiro menor e um grande desafio se utilizando o tabuleiro maior. Esse modo de jogo abrilhanta o Viticulture, o que antes era um bom euro, torna-se um ótimo euro que contempla o jogador solitário como poucos.