Acho curioso que sempre haja alguém que aqui ou ali insista em criar uma lista com os melhores jogos de todos os tempos ou os melhores jogos do mundo – uso dois exemplos bem exagerados só para efeito de reflexão. Ora, uma lista assim não é definitiva e sempre será relativa, porque muitas serão as circunstâncias, de tempo, espaço, pessoas, estado de ânimo etc.
Vamos e vejamos:
1. Há um naufrágio. Um único sobrevivente chega a uma ilha deserta. Dias depois, ele encontra, entre os destroços do navio que vieram dar na praia, um exemplar de Resta Um. Então este é o melhor jogo de todos os tempos! Entre os despojos havia também um único baralho, do tipo francês, mas o náufrago não conhecia nenhum jogo solo de cartas. Daí, para descansar de jogar Resta Um, ele se debruça sobre aquelas 52 cartas e dois curingas, e cria dois jogos solos: Relógio e Pirâmide. Os três melhores jogos do mundo são aqueles: Resta Um, Relógio e Pirâmide. Passados alguns anos, ele inventa mais um jogo: Leques. E dias depois, sua obra-prima: Klondike. Os melhores jogos de todos os tempos agora são esses, nessa ordem: Klondike (o mais complexo e desafiador), Resta Um (genial, mas de autoria alheia), Leques, Pirâmide e Relógio.

2. O mundo acabou. Só duas pessoas sobreviveram. Perambulando por uma grande cidade, elas entram numa loja de jogos de tabuleiro. Agora, os melhores jogos do mundo são todos aqueles que comportam duas pessoas jogando. Nem pensem em Catan! A variante para duas pessoas não estava na caixa! Dentre todos, elegem Carcassone, que, com suas três regras básicas de funcionamento, é o suprassumo da acessibilidade. Mas havia momentos em que uma delas precisava se ausentar em busca de água e comida, e então, se quisesse jogar, só restava a quem ficasse o K2, Ricochet Robots e Miguel Strogoff, os únicos jogos da pequena loja que possuíam variante solo. Então eram esses os melhores jogos do mundo, com Carcassone no topo.

3. Uma peste destruiu quase toda a humanidade. Num lugarejo remoto, por uma circunstância singular, sobreviveram uma professora e sua turma de quase cinquenta alunos. Em meio às necessidades básicas para se continuar vivendo, como comida, itens de higiene e remédios, é preciso fazer com que todos aqueles órfãos se mantenham ocupados e interessados em alguma coisa… Por uma interferência do acaso, a professora encontra numa casa abandonada uma cópia de Cartógrafos. Enquanto durar aquele único bloco de folhas, aquele é o melhor jogo do mundo, pois jogam até 100 pessoas! Felizmente o antigo dono tinha adquirido mais dois blocos, encontrados noutro cômodo da casa… Ufa! Tiveram tempo então de sair em busca de jogos similares e afinal acharam, numa outra residência, um exemplar de Avenue, na versão que traz mais dois blocos de folhas de jogo. Neste, embora a informação na caixa não o confirme, podem jogar também dezenas de pessoas. Agora os melhores jogos de todos os tempos eram Cartógrafos e Avenue!

4. Uma pessoa, imersa em profunda depressão e internada numa clínica de reabilitação, não se interessa por coisa alguma. Tudo é feito para que ela retorne a uma vida normal e regular, mas os esforços são nulos. Até que ela vê três internos jogando Takenoko… Sem que nem mesmo alguém lhe explique as regras, ela aprende a jogar, só por observação. Depois joga, ganha, se apaixona, e o jogo se torna a sua única razão de viver naquele trágico momento. É o melhor jogo do mundo!

5. Um homem, uma vez por semana é escalado para cumprir o plantão noturno de sua empresa. Ele fica lá, na grande sala, sozinho e a postos para a eventualidade de uma chamada telefônica, que, no entanto, é rara, apesar de possível. Então ele joga Finished! Embora nunca tenha vencido uma única partida sequer, esse é o melhor jogo do mundo, porque o mantém alerta e num contexto muito semelhante ao daquele trabalho. Funciona em sua cabeça num duplo sentido, bem peculiar, tanto de afastamento quanto de proximidade. Ele sai dali sem sair. Ele se torna outro mantendo-se quem é. Ele se distrai, mas continua alerta.
6. No front da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), dois soldados cumprem o turno de vigia da noite e jogam Mancala à luz da chama de seus cigarros e de suas lanternas, mesmo sob a ameaça de levarem um tiro. Mas é dezembro, época de Natal, houve uma trégua! Do outro lado, os adversários também jogam qualquer outra coisa. São os melhores jogos do mundo!
7. Um sujeito têm sorte especificamente com 4 números, de 2 a 12, nessa ordem: 6, 5, 2 e 11. Então o melhor jogo do mundo para ele é Can’t stop! Ele ganha 6 de cada 10 partidas que joga quando investe nesses números.
8. Um casal de aposentados, encerrado em sua casa de praia, durante a Pandemia de Covid-19, começa a se deprimir, pois não pode receber a visita dos filhos, nem de outros parentes e amigos. Um destes lhes manda de presente um exemplar de Catan, que eles jogam mesmo sabendo que com dois jogadores o jogo não funciona muito bem… Mas adaptações advêm das necessidades. E as partidas se multiplicam. Dias depois, a irmã de um dos cônjuges se junta a eles durante o confinamento. Em três, Catan se torna então o melhor jogo do mundo!

Bem, era isso. Listas são listas e não passam de listas. Refletem muita coisa, desde gosto pessoal a circunstâncias específicas, oriundas das mais diversas contingências. Os melhores jogos para mim são aqueles que mais aprecio jogar sempre ou momentaneamente. Mas evito mencioná-los, porque o egocentrismo das pessoas é tanto, que elas não admitem que entre os “meus preferidos” não esteja nenhum dos “seus preferidos”. Então me pergunto: em que gramática do português o pronome possessivo “meu” tem o mesmo sentido de “seu”?
A Terra gira, e giram também as cabeças!
Mayrant Gallo é professor, escritor e faz parte da Invasion BG. Publicou mais de 15 livros. Eclético, aprecia cinema, literatura, música, jogos de tabuleiro, baralhos, plastimodelismo, pintura e tudo o que de refrescante e elevado a vida pode nos oferecer.
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