ALGUNS CONSELHOS ELEITORAIS DE UM ZÉ NINGUÉM
Hoje é um dia muito importante para todos os brasileiros. Iremos às urnas fazer nossas escolhas daqueles candidatos e candidatas que consideramos serem os melhores - ou menos piores - para tomarem as rédeas da Política do nosso país. Não é uma tarefa fácil, e muito menos uma que garante sucesso. Mesmo que as opções que defendemos cheguem lá, o passado (antigo e recente) nos ensinou que não podemos confiar cegamente em ninguém: é preciso pressionar e fiscalizar quem for eleito.
A expressão máxima da democracia pode até ser o voto, mas nossa participação política não termina nas Eleições! Há várias maneiras de cobrarmos serviço dos nossos representantes ao longo de seus mandatos, de forma legal e cidadã. Acompanhar o debate e os posicionamentos dos parlamentares no Congresso, participar de consultas públicas, reivindicar demandas por meio de manifestações pacíficas, acompanhar notícias sobre a política em meios de comunicação comprometidos com a propagação de informações verdadeiras, manter a comunicação e a cobrança com os políticos por meio das redes sociais e assessorias... tudo isso e muito mais são formas de sermos politicamente ativos e evitar a alienação. É cansativo, mas compensa MUITO, se você pensar que essas pessoas ficarão quatro anos - ou oito, no caso de senadores! - na perigosa posição de poder definir o futuro do país. Um cargo político não deveria ser brincadeira, não deveria ser tratado com descaso; é pra esses ilustres escolhidos saírem de lá exaustos, mil vezes mais cansados do que entraram!
Mas vamos com calma: tudo começa pelo voto. Neste ano votamos em seis pessoas - na seguinte ordem: um(a) deputado(a) federal, um(a) deputado(a) distrital/estadual, dois senadores, um(a) governador(a) e um(a) presidente da República. É muita gente. E não dá pra negar que as notícias e discussões acabam girando em torno majoritariamente dos presidenciáveis e dos "governáveis", no máximo (é claro que esses cargos são super importantes, mas vale lembrar que presidente e governador têm poderes restritos!). Em contrapartida, é muito difícil ver discussão sobre o Senado, a Câmara Federal ou as Câmaras dos Estados/DF! Cuidado! São esses cargos, meio que deixados de lado, meio que
"no dia eu decido na hora" que são na verdade os mais importantes! É o Legislativo quem faz, aprova e rejeita leis, que podem nos beneficiar ou nos prejudicar. Então tire alguns minutos para fazer a pesquisa - se ainda der tempo, claro! - e descobrir, dentre taaaantos nomes, quem são aqueles que te representarão melhor no Legislativo, que tal?!
E é isso, no fim das contas: eu só torço pra que você vote consciente. Eleja aquelas pessoas que REALMENTE te representam. Projete o Brasil que você quer pelos próximos quatro anos e ativamente contribua para atingi-lo! É claro que as visões de país irão ser diferentes de eleitor pra eleitor - muitas vezes, radicalmente diferentes. E é claro que apenas algumas visões de Brasil irão acabar por triunfar ao fim das Eleições... Mas é assim que funciona a democracia! Alguém vai ter que ganhar, e esse resultado precisa ser respeitado. O mais importante é manter o respeito, a civilidade, defender suas convicções sem criar conflito por causa das convicções dos outros. Torço muito para que o domingo seja tranquilo, sem incidentes... que as diferenças entre os brasileiros possam ser resolvidas pacificamente: nas urnas.

É com base em todas essas reflexões, que decidi montar uma listinha com alguns jogos de tabuleiro sobre política. Existem vááááários jogos com essa temática já lançados, diversos deles inclusive super renomados! Mas aqui, nesta lista específica, eu preferi focar em jogos brasileiros e, mais ainda, que destacassem ou o processo eleitoral ou as consequências diretas desse processo. A Ludoteca atualmente não têm nenhum dos jogos a seguir na sua loja ou no acervo, mas o objetivo deste post está longe de ser mercadológico. É importante discutir política, e que jeito melhor de fazer isso do que analisando jogos de tabuleiro?!
1. Eleições

O jogo mais antigo desta lista, Eleições, de 1981, foi lançado pela Grow e tem autoria do ícone português-que-veio-para-o-Brasil, Mario Seabra. A pegada de Eleições é mais voltada para como funciona o dia-a-dia de campanha eleitoral de um candidato: os jogadores assumem o papel de candidatos a presidente de partidos fictícios diferentes e devem viajar pelo país inteiro, fazendo comícios em cada cidade para angariar votos. O legal é que cada cidade têm uma de cinco orientações políticas diferentes (desde a direita à esquerda), e seu trabalho como candidadto(a) é convencer os cidadãos das cidades que têm alinhamentos distintos do seu partido a votar em você! Bem o que acontece na vida real, com estados distintos do Brasil estatisticamente mais alinhados com certos candidatos. A mídia também está presente no jogo, com notícias e rumores afetando a popularidade dos candidatos. Aqui, o texto das cartas guarda muita relação com o momento político que o Brasil vivia na época do lançamento: os anos finais do regime militar e a transição para a redemocratização do país. Inclusive porque jamais um jogo sobre eleições presidenciais diretas conseguiria ser lançado no começo da ditadura.
2. Corrida Presidencial

Em 1998 (com relançamento em 2006), Sérgio Halaban, André Zatz e Sílvia Zatz publicaram pela Game Office sua própria versão lúdica das eleições presidenciais. Em Corrida Presidencial, os jogadores são os chefes de campanha de candidatos a presidência e vice-presidência do Brasil - sim, do Brasil mesmo!, sendo o tabuleiro do jogo o mapa do nosso país, dividido por regiões e com indicação do nome de todas as Unidades da Federação. O objetivo de cada jogador é decidir as ações que os presidenciáveis devem fazer a cada turno, como viajar para estados distintos, fazer propaganda na TV, investir em outdoors e panfletos, fazer alianças ou denúncias, e por aí vai. Pesquisas eleitorais são realizadas a cada três rodadas e o primeiro turno da campanha termina com um debate entre os candidatos, passando apenas os dois mais votados para o segundo turno. Bastante fiel ao que acontece na realidade de uma campanha eleitoral, mas com uma certa dose de humor, Corrida Presidencial prefere deixar a paródia de lado: o jogo é sobre o Brasil e ponto final.
3. Bra$ilis

Neste jogo de Thiago Brito, Yuri Fang e Renato Sasdelli, lançado em 2010 pela Galápagos Jogos, vemos desde a arte da caixa aos componentes uma sátira ácida e escrachada dos escândalos de corrupção na política brasileira associados à expressão "tudo acaba em pizza". Se isso não fosse suficiente, o título do jogo, com o irônico cifrão no lugar do 'S' não deixa dúvidas que o designer se inspirou em problemas do próprio país para criar o conceito. Em Bra$ilis, os jogadores interpretam políticos buscando votos da população para chegar ao poder. Nada novo sob o sol até aqui. Só que o tom amargurado e sarcástico do jogo se destaca com relação aos outros: fazer falcatruas, acusações falsas, alianças fraudulentas, pagar propinas e outras ilegalidades são parte integral da mecânica de cartas do jogo. As cartas de notícias são de escândalos e absurdos. A população tem até uma trilha própria no tabuleiro, para medir sua fúria com os candidatos da eleição. Em Bra$ilis, o político honesto, que segue as regras do jogo, eventualmente acaba por se corromper. Até o código de barras da caixa é ressignificado como grades de uma cela para um corrupto.
4. Eleições 20XX
Eleições 20XX, de Bruno Carvalho e Pablo Ribeiro, deveria ter sido lançado em 2018 pela Legião Jogos, mas o jogo infelizmente não atingiu a meta do financiamento coletivo. Apesar disso, ele está disponível online no Tabletopia e pelo
game Tabletop Simulator, que pode ser adquirido em plataformas como o Steam. Aqui, os jogadores também interpretam candidatos à presidência disputando eleitores e seus votos, e o pessimismo e o deboche também se fazem bem presentes, principalmente nas ações possíveis aos jogadores e na "sutil" referência artística dos candidatos. Todos parecem inexplicavelmente familiares... O jogo conta com um sistema de angariar eleitores, e "roubá-los" dos outros candidatos, além de vários debates ao longo da partida e uma área de votos nulos, que podem ser convertidos se sua campanha for boa. O lance é que "campanha boa" aqui inclui diversos tipos de ações questionáveis, como troca de favores, suborno e doações ilegais. E considerando o quão recente é o jogo e o seu nome (que eu leio como "Eleições Dois Mil e Bolinha"), nota-se que os autores não parecem estar muito otimistas quanto ao processo eleitoral atual ou os próximos que vêm pela frente...
5. Vossa Excelência

Outro jogo de 2018 e também bastante atual na abordagem é o auto-publicado Vossa Excelência - O Jogo Político, de Fernando Prado e Marcelo Dias. A pegada é muito parecida com a de Bra$ilis e de Eleições 20XX na questão da sátira e em algumas mecânicas, mas o tema é ligeiramente diferente: em Vossa Excelência, os jogadores JÁ FORAM eleitos. Todos assumem o papel de deputados federais recém chegados à Câmara, e o objetivo do jogo é sobreviver aos quatro anos de mandato, sem sofrer cassação, enquanto ao mesmo tempo angariam apoio do eleitorado, influência e dinheiro, para garantir a reeleição nas próximas Eleições. O jogo busca parodiar a vida política de um deputado, que deve aprovar leis, fazer alianças com outros partidos e se manter longe dos escândalos... ou pelo menos evitar que eles sejam descobertos. Vossa Excelência conta com eventos que espelham aqueles ocorridos no Brasil real, bem como os diversos tipos de irregularidades que vimos ser cometidas por membros dessa classe política. Aqui, o pessimismo é nítido também, e justamente pelo tom de humor, que acaba transparecendo o sentimento popular de que a corrupção na vida pública infelizmente já é algo dado como certo.
6. Excelência
Chegamos ao último título da nossa breve lista, aquele que na verdade me inspirou a escrevê-la para começo de conversa. Se você procurar por Excelência na Ludopedia ou no BoardGameGeek, não vai encontrar nada. Acontece que este jogo foi o
Trabalho de Conclusão de Curso em Design Visual (UFRGS) de Leônidas Soares Pereira em 2016. Leônidas, se você estiver lendo, eu nem te conheço e já te admiro pacas! A proposta do autor foi justamente fazer um levantamento sobre jogos de tabuleiro com tema político, analisá-los em termos mecânicos e temáticos, relacioná-los com a vida real e por fim produzir um jogo original que explorasse os conhecimentos apreendidos. O resultado desse esforço super admirável foi Excelência, um belíssimo jogo sobre o Poder Legislativo e o processo de redigir e aprovar leis no Congresso Nacional. Os jogadores assumem o papel de membros do parlamento, cada um com seu próprio alinhamento no espectro político (conservador/progressista, liberal/estatizador) e objetivos particulares. Por meio de mecânicas que simulam sessões temáticas do Congresso, os parlamentares buscam aprovar projetos de lei que atendam seus objetivos e barrar outros que são contrários aos seus interesses. É importante frisar que em Excelência, o autor buscou reproduzir o processo COMO ELE DEVERIA SER, ou seja, sem a possibilidade de irregularidades e esquemas por parte dos parlamentares. Será que podemos sonhar com um futuro próximo onde isso seja uma realidade? Tudo começa pelo voto. Temos uma nova chance hoje.
CONCLUINDO...
Você com certeza percebeu um padrão nos jogos desta lista: todos contêm referências perceptíveis ao Brasil ou à cultura política brasileira. Algumas das referências são mais discretas e sérias, outras são mais óbvias e satíricas. Algumas referências são universais - ou seja, sobre a política em geral, de qualquer lugar do mundo - e outras são bem específicas do nosso país. E na maioria dos casos (contando aqui inclusive vários jogos não brasileiros sobre o tema), infelizmente, essas referências são preocupantes

Elas refletem uma realidade em que a política se confunde com a politicagem, em que o discurso puxa mais votos que a ação concreta, em que as práticas ilegais se tornaram cotidiano no meio político. É claro que o Brasil não é, nem de longe, o único país do mundo que sofre com esses problemas. Mas aqui, o problema é nosso. E a gente pode ser a solução.
Eu particularmente acho fantástico quando pesquiso e descubro tantos jogos de tabuleiro preocupados com política. Falando de política. Simulando a política. Gerando críticas quanto à política. Ela faz parte da nossa vivência como cidadãos, goste você ou não, e os jogos acabam apenas refletindo isso. Boardgames podem ser ferramentas fantásticas para o ensino e para o aprendizado dos mais variados temas, e Política não é uma exceção. Inclusive, justamente pela dinâmica de negociação, ação e interação que são próprias tanto da política quanto de vários estilos de jogos, é que as duas coisas funcionam tão bem juntas.

O que esses seis jogos políticos - e mais as outras centenas que há mundo afora - podem nos ensinar? Que a política não está sendo feita direito? Que o objetivo de se fazer política se corrompeu? Que os processos são falhos e a participação popular se torna essencial para corrigi-los? Eu creio que tudo isso e muito mais. E penso além, me permitindo um breve momento de positividade: ao se engajar verdadeiramente na política, as pessoas passarão a ter as rédeas da situação, fiscalizando e cobrando a responsabilidade daqueles que foram eleitos. Haverá menos espaço e muito menos tolerância para desvios éticos, e gradualmente os políticos passarão a trabalhar para nós e não às nossas custas - wow, olha que ideia maluca! Com uma nova cultura política em vigor, acredito que no futuro boardgames políticos sem elementos de corrupção, excessos, intolerância ou desvios morais venham a se tornar os mais comuns, simplesmente porque essas coisas todas não refletirão mais a nossa realidade.
Sonhei alto demais agora, né?! Talvez. Seja como for, peço licença agora que tenho que ir ali votar.
Por favor, peço encarecidamente que você não utilize o espaço de comentários deste post para fazer apologia ou defender - explícita ou implicitamente - qualquer candidato, partido político ou ideologia. Afinal, apesar da necessidade de se discutir política, há formas e formas de fazê-lo, e aqui ainda é um espaço voltado aos jogos de tabuleiro e não à propaganda eleitoral. Agradeço a colaboração com a imparcialidade neste espaço^^
[Lista temática originalmente publicada em 7 de outubro de 2018, no Blog da Ludoteca - blog.ludoteca.com.br]