Texto originalmente publicado no meu blog Images and Words em 17/02/2016 e no Meeple Maniacs em 21/03/2016.
Minha história com jogos de tabuleiro começou cedo. Desde criança sempre gostei de jogar com a família e com os amigos. Foram muitas tardes (e depois noites) jogando Zoo Safari, Ladrões no Bosque, Master, War e tantos outros. Esse gosto por jogos vem se estendendo desde então.
No início dos anos 2000, conheci jogos como Lord of the Rings de Reiner Knizia (meu primeiro cooperativo), Battlestar Galactica e, mais para frente, Munchkin. Mas foi no final de 2012 que entrei de cabeça nos jogos de tabuleiro modernos. Hoje tenho a oportunidade de jogar com as minhas filhas, do mesmo modo que meus pais sempre jogaram comigo, e com a minha irmã. Hoje elas têm 10 anos e meio e 8 anos e meio e temos jogado juntas há três anos.
A partir daí, tive a ideia de começar a escrever sobre as experiências em jogar com elas, para compartilhá-las e assim incentivar outros pais a fazerem o mesmo. Mas já aviso que não sou formada em Educação, nem tenho experiência nessa área, portanto minhas análises e ações não são baseadas em metodologias de ensino, mas na vivência do momento em si.
Para a estreia da coluna “Crianças, Tá na Mesa!” aqui no Meeple Maniacs, escolhi um dos últimos textos que publiquei em meu blog pessoal.
Eis que um belo dia chego em casa após o trabalho, e tendo minhas filhas terminado a lição e estando de banho tomado, insisto em jogarmos um jogo para aproveitarmos o tempo até a hora delas irem dormir. Insistência em vão.
Depois de muita enrolação, briga, janta etc. chega a hora delas irem dormir. Quem me conhece sabe como insisto e não abro mão delas irem deitar às 20h todos os dias, afinal, em dia de aula, elas (e eu) acordam às 6h10min. Digo brincando que me dá urticária quando não consigo colocá-las para dormir nesse horário.
Faltando 10 minutos para às oito da noite, Dora (minha mais velha) diz que quer jogar um jogo. Respiro fundo e começo a propor alguns, tipo Tsuro, Timeline, Love Letter. Nesses meus 10 anos como mãe, sei o quanto custa dizer não, e nesse caso eu sabia que iria demorar mais para colocá-las para dormir se eu não jogasse. E convenhamos, não dá para resistir!
Nem preciso dizer que foi em vão a minha tentativa de empurrar um jogo rápido. Dora abre o armário e diz, “Quero jogar esse” e aponta para Alien Frontiers. Eu, em toda a minha inocência, ainda tento, “Mas Dora, esse jogo é muito demorado e sua irmã ainda não jogou. Vamos jogar Carcassonne?”. E ela: “Não”. “Metrocity?”. “Não”. “Warzoo?”. “Não.”
Ok, vamos jogar Alien Frontiers. Explico as regras para Nina e relembro Dora de como se joga. Ao invés de sete colônias como pede um jogo para três jogadores, distribuí cinco para cada, para não prolongar muito.
Costumo, ao longo dos jogos, dar dicas, questionar as decisões que elas tomam, relembro alguma regra e assim elas vão aprendendo. Nesse jogo não foi diferente. Tudo estava indo tranquilamente, a Nina mandando bem já de início. Dora comprou a carta que dava ponto de vitória. Fui lá e roubei dela, só para ser roubada pela Nina em seguida. Fui a primeira a enviar uma colônia. Eu tinha duas escolhas, enviar a minha colônia para Burroughs Desert, e quase, com certeza, não ter a chance de pegar a Relic Ship, ou escolher uma outra colônia e ter que enfrentar a ira daquela que colonizasse o Burroughs Desert quando eu colocasse uma colônia ali também, para não permitir que a mesma pegasse a Relic Ship. Acabei ficando com a primeira opção.

Quando comprei a Relic Ship não tive nem tempo de usar porque, como previsto, Nina já foi com a sua colônia no mesmo espaço.

Segue o jogo, com Nina pegando cada vez mais naves (dados), eu e Dora na frente enviando mais colônias. Ela com 4, eu com 3, mas com mais pontos por ter uma carta que me dava um ponto de vitória e porque a Dora colocou duas colônias no mesmo território.

Em certo ponto, consegui usar a Terraformação, mas o que me deixou com apenas três dados. Ela também usou a Terraformação, ficou com três dados e faltando apenas uma colônia para acabar com a partida.
Até aí estava tudo bem. A Dora estava feliz, jogando o jogo que havia escolhido e na briga pelo primeiro lugar. Apesar da Nina ter começado bem, e estar abarrotada de recursos e naves, o jogo é complexo para a idade dela e ela não consegue assimilar todas as estratégias e possibilidades. Ainda bem, porque deixou passar naves com valor 6 mais de uma vez, e poderia ter vencido. Foi aí que cometi um grande erro!
Na jogada da Nina ela tinha tirado nos dados 3, 4 e 5. Ela não conseguia fazer o que queria, e decidiu usar uma das cartas que permitia que ela rerrolasse os dados. Quando ela o fez, acabou por tirar valores piores, que não adiantavam nada. E eu acabei deixando-a voltar e ficar com os valores que tinha antes. Para quê!? Não é que ela coloca justo no Raider´s Outpost e rouba os recursos da Dora, que era a próxima jogadora e iria com quase toda a certeza enviar a última colônia para o planeta e ganhar o jogo! Depois dessa jogada, tivemos mais umas duas ou três rodadas com a Nina tirando sequências nos dados em todas elas e roubando recursos meus e da Dora, e não deixando nenhuma de nós duas ganhar.
Nem preciso dizer que Dora ficou muito brava, chorou, brigou comigo por ter deixado a Nina voltar a jogada. Quando ela finalmente conseguiu enviar a última colônia, não conseguiu ficar na frente, tendo eu 1 ponto a mais. Foi então que tive a oportunidade de me redimir (pelo menos um pouco), deixando-a voltar para tentar ganhar na rodada seguinte. Fiquei morrendo de medo da Nina ganhar nesse ínterim, ou pior, eu acabar ganhando. Mas com apenas três naves e a Nina tirando meus recursos em todas as jogadas, ficou difícil para mim. No final, Dora conseguiu vencer, porque Nina enviou uma colônia para o mesmo território que eu, tirando-me um ponto, e Dora colocou um Positron Field em um de seus territórios controlados e, portanto, ultrapassou-me em pontos de vitória.

Resultado final:

Dora (verde): 8 pontos
Mariana (azul): 7 pontos
Nina (vermelho): 7 pontos
Lição do dia: não deixe nenhum de seus filhos voltar uma jogada, se estiver jogando com mais de um!!!
Alien Frontiers é um jogo de alocação de dados (com controle/influência de área), mecânica essa que eu amo, e ainda com a temática que me agrada muito. Falou em espaço, ficção científica é comigo mesma.
Esse jogo ainda não foi lançado no Brasil, mas pode ser encontrado lá fora. Apesar das cartas terem algum texto, a dependência da língua não chega a ser um problema pelo fato delas ficarem abertas na mesa. Eu lia as cartas para elas, e quando elas me pediam, eu relembrava o que cada uma fazia.

Não é um jogo simples para a idade delas, mas também não é complicado a ponto de elas não conseguirem jogar, visto a saga contada acima! Já deixei de me surpreender há muito tempo com a capacidade delas entenderem coisas que não achamos que poderiam entender.
Nina não conseguiu avançar tão rápido quanto eu e Dora, por ter investido na compra de mais naves, mas foi esperta o bastante para brecar a vitória de uma de nós duas, ao roubar nossos recursos por três rodadas seguidas. Se ela ainda tivesse em paralelo enviado as colônias com a terraformação quando teve a chance, teria vencido a partida.
No fim, elas foram dormir às 22h, com uma Dora feliz por ter ganho, mas ao mesmo tempo ainda irritada com a Nina e comigo. E uma Nina feliz, porque com ela nunca tem tempo quente, e tendo se divertido ainda mais por roubar nossos recursos! Eu, claro, apesar da minha pisada de bola e do horário, fiquei feliz em jogar Alien Frontiers com elas!
Por fim, não posso deixar de agradecer ao Mateus Carnevalli Terni pela sugestão do nome da coluna.