Fui com muita expectativa jogar
City of the Big Shoulders (Chicago 1875), já que diziam ser um
18XX melhorado; e por mais alta que ela fosse, foi superada. Considero os 18XX como os melhores jogos econômicos existentes, figuram no meu
Top 10, e apesar da dificuldade de um jogo desses ver mesa, me esforço para jogá-lo ao menos 5 a 6 vezes por ano, porque gosto muito! Mas devido aos últimos acontecimentos, essa lista de top 10 poderá sofrer alterações.
Jogar um 18XX é um desafio grande, pela complexidade de regras, tempo médio de duração da partida e marasmo nas rodadas finais, mas a satisfação que traz é ainda maior que tudo isso. Fiquei encantado quando joguei um pela primeira vez, a flutuação impecável do mercado de ações proporciona muita especulação financeira durante o jogo, e ver a empresa de um outro jogador crescendo te dá mais vontade de ter participação nela do que afundá-la, já que no final do jogo ganhará o melhor portfólio de ações. O jogo traz uma mecânica paralela ao mercado de ações, que é a operação das empresas; momento em que o presidente (e seus acionistas) investirá grande esforço para trabalhar de forma mais lucrativa, a fim de aumentar seus dividendos e tornar a empresa mais valiosa aos olhos do mercado.
É justamente essa fase que torna o jogo demorado. A lei de Pareto (princípio do 80/20) se aplica muito bem a uma partida dos jogos dessa família. 80% do tempo de jogo é responsável por 20% da experiência (fase de operação), enquanto 20% do tempo de jogo e responsável por maior parta da diversão e inteligência do jogo (fase de ações). City of the Big Shoulders otimizou a fase de operação das empresas, passando um feeling bem similar do gerenciamento da empresa: otimizar jogadas para melhorar a renda ao máximo. Isso fez com que o tempo de jogo caísse bastante, com pouca perda.
Diferentes versões de 18XX já tinham tentado diminuir o tempo de jogo: alguns terminam quando alguma ação atinge um valor limite, outros disponibilizam menos dinheiro ao banco, menos trens, etc., mas nenhuma tentativa foi tão inovadora, sendo assim os resultados não eram tão eficazes. O que Raymond Chandler III fez foi brilhante, e acho que outros designers deveriam fazer. O sistema 18XX nasceu em 1974 com Francis Tresham (falecido este ano, 2019), e aperfeiçoado por ele mesmo em 1986. Mesmo passando por essa revisão o jogo é antigo e possui defeitos, e ainda assim está entre meus favoritos. Criar um jogo, utilizando as melhores características dele e modificando as demais de forma a torná-lo mais agradável, produziu um resultado espetacular.
A comunidade reclama de falta de inovação nos board games, de que não se cria novas mecânicas a muito tempo, e que um jogo novo é muito parecido com um antigo. Na tentativa de atender a esses anseios, editoras e designers têm se arriscado mais, mas nem sempre isso tem trazido bons resultados. Não acredito que inovar seja apenas a ação de criar algo novo; melhorar algo existente (de forma inovadora) também é. E fazendo-se isso com um volume de dados recolhido durante anos de um outro jogo, torna a inovação mais consistente, com melhores chances de acerto. Meu atual jogo favorito é o Through the Ages: uma nova história da civilização, que é uma versão 2.0 de um jogo lançado 9 anos antes, e eu não vejo problema nenhum nisso. Ao contrário... para mim é a obra prima em jogos de tabuleiro. Ver o resultado de City of the Big Shoulders me deixou ansioso para conhecer cHicago mobsTer, que está sendo anunciado como uma reformulação do já excelente Hansa Teutonica (outro favorito meu), e esperançoso para que alguém faça uma nova versão de Merchants & Marauders, que eu adoro jogar, mas que, mesmo com a expansão, continua com muitas falhas.
Não sei dizer se City of the Big Shoulders vai entrar no lugar do 18XX no meu top 10, tenho que jogá-lo mais vezes, e fiquei com mais vontade ainda de jogar 18XX, para fazer a comparação, e para aproveitar características que gosto no jogo e que foram removidas deste seu sucessor. Da mesma forma, tenho jogado partidas de Empires of the Void II antes de substituir Merchants & Marauders. Mas a certeza que tenho é que muita coisa pode (e deveria) ser feita com base em jogos excelentes, que podem tornar-se ainda melhores; dá pra beber muito dessa fonte, e considero esse tipo de inovação tão benéfico como inventar algo totalmente novo.