
El leòn de San Marco
Venetia é um jogo estratégico e econômico criado em 2013 pelos designers Marco Maggi e Francesco Nepitello (autores de A Guerra do Anel, Age of Conan e Barcelona), no qual dois a quatro jogadores assumem o controle de uma das principais famílias patrícias de Veneza. Ambientado num período que vai dos séculos IX ao XVIII, o jogo divide-se em três épocas distintas: ascensão, apogeu e declínio.
Regras e mecânicas
Como líderes de uma poderosa família veneziana, o objetivo de cada jogador é aumentar seu poder, influência, prestígio e fortuna, mensurados por pontos de vitória e obtidos de várias maneiras: abrindo rotas marítimas, estabelecendo colônias e entrepostos comerciais, combatendo piratas e negociando com (ou atacando) os rivais da Repubblica Serenissima.
A primeira ação do jogo consiste na eleição do doge. Cada jogador seleciona duas cartas: uma carta de membro da família e uma de suas três cartas de ação iniciais. As cartas são reveladas e o jogador que obtiver o maior valor na soma das duas cartas elege o doge.
O doge, além de ser o jogador inicial e rolar os dados de ação no primeiro turno, possui duas habilidades especiais: usar o poder de veto para cancelar uma única carta de ameaça (uma regra opcional que considero essencial); e utilizar obrigatoriamente uma de suas fichas ducais para ganhar PV ou ações extras no turno. Assim que acabarem as fichas ducais, um novo doge é eleito ao final do turno.
Il doge Sebastiano Venier
Basicamente, em cada turno um jogador vai selecionar um dado e executar um número de ações correspondentes ao valor do dado e, se possível, comprar cartas – a face com o número 2 também permite ao jogador sacar uma carta, e a de número 4 permite aos oponentes, e apenas eles, sacarem uma carta.
Já o tipo de ação depende da cor do dado selecionado.
Dados dourados representam ações comerciais e permitem alocar um marcador de influência em uma ou mais colônias.
Dados cor de bronze são ações políticas, e permitem alocar um ou mais marcadores de influência em uma mesma colônia.
Já os dados prateados representam ações militares e, embora mais flexíveis, envolvem um pouco de sorte – um ataque bem-sucedido permite alocar marcadores de influência em uma ou várias colônias, mas a quantia de marcadores é determinada pelo valor sorteado nas fichas de combate. Você também pode atacar colônias controladas por outras famílias para tomar o controle, porém isso lhe dá infâmia, prejudicando sua família na próxima eleição ducal. Além disso, ações militares também são utilizadas para atacar navios piratas e frotas de nações inimigas.
Os dados de ações
E, independentemente do tipo de dado selecionado, todo jogador pode utilizar uma ação para:
- alocar um cubo de influência em uma zona marítima, abrindo assim rotas comerciais marítimas que permitem alcançar regiões mais distantes do mapa;
- ou estabelecer tratados políticos, removendo assim o marcador de uma nação rival de uma região do mapa. Isso é necessário, pois os jogadores não podem colocar marcadores de influência em regiões dominadas por outras nações. Tratados também valem PV ao final do jogo.
As colônias dividem-se em menores (valor 3) e maiores (valor 4). Quando o número de marcadores de influência atinge o valor da colônia, ela se torna um importante centro comercial sob controle de Veneza, e o jogador que tiver o maior número de marcadores pode alocar um podestà (um oficial administrativo) de sua cor na colônia, colocando-a sob influência direta de sua família.
Marcadores de influência são removidos como resultado de cartas de ameaça ou quando ocorre uma revolta causada pelo excesso de influência – alocar seis ou mais marcadores sempre causa uma revolta na colônia, que por sua vez reduz a influência dos jogadores, e é uma manobra importante para expulsar uma família rival de uma região.
Além disso, os jogadores fazem uso das cartas de ação, também divididas em comerciais, políticas e militares, utilizadas em seu turno para obter uma série de efeitos variados – incluindo aí afetar os oponentes direta ou indiretamente - ou na eleição dos dogi;
Ao final de cada era – que é determinado de acordo com a movimentação de dois peões na trilha de poder no canto inferior direito do tabuleiro – os jogadores somam seus pontos de vitória, elegem um novo doge e iniciam uma nova era. Pontos são ganhos pela influência total de sua família nas colônias, PV coletados durante o jogo, marcadores de doge, tratados com nações estrangeiras e na eleição do último doge.
Implementação do tema
O jogo é um euro fortemente temático. Todas as ações e mecânicas tem a ver com a expansão comercial, política e militar veneziana no Mediterrâneo e não estão lá aleatoriamente; muitos aspectos do jogo, como a eleição do doge, o estabelecimento de colônias e o surgimento de nações rivais estão ligados à História da Sereníssima.
Quem não conhece a história de Veneza irá apreciar o jogo sem problema algum. Mas fãs de história, principalmente de história italiana ou mediterrânea, terão uma experiência sublime.
Arte
A arte do jogo ficou a cargo do arquiteto, ilustrador, quadrinista e professor do Instituto de Belas-Artes de Veneza, Matteo Alamanno. Suas ilustrações casam perfeitamente com a proposta do jogo e é perceptível seu cuidado em retratar com muita precisão a Veneza medieval. Não sei se foi intencional ou não, mas me lembrou muito as artes da série de história militar Man-at-Arms da Osprey Books.
O tabuleiro também é muito bonito, detalhado e funcional, remetendo a mapas antigos feitos à mão por cartógrafos renascentistas. Embora use principalmente beges e ocres, há o uso inteligente de cores suaves e linhas tracejadas para delimitar regiões geográficas e marítimas do Mediterrâneo.
O belíssimo tabuleiro!
Um detalhe interessante é que Alamanno retratou os designers do jogo nas cartas abaixo:
Francesco Nepitello & Marco Maggi
Componentes
A caixa é bastante volumosa, medindo 27,5 cm x 39,5 cm x 8,5 cm (mesmo tamanho do Cyclades), porém o papelão não é tão robusto quanto eu gostaria.
O tabuleiro, por outro lado, é bastante espesso e pesado, e não apresentou marcas esbranquiçadas nas dobras. Parece que é daqueles que, com o devido cuidado, dura uma vida inteira, assim como as fichas e marcadores. Destaco os marcadores do doge, que possuem a forma do corno ducale utilizado pelos dogi de Veneza.
Doge Andrea Gritti, por Ticiano
As cartas também são belíssimas, bem resistentes e possuem uma camada semelhante a um verniz. Para quem gosta de utilizar sleeves, o tamanho é standard, preferencialmente os ultra-fit, que ficam mais justos.
Cartas de ameaças e cartas de ações.
As peças de madeira também são muito bem feitas. Os cubos estão bem cortados e pintados em cores vivas; minha única reclamação é que os cubos brancos possuem três tons diferentes (horizonte, gelo e branco, segundo minha caríssima), mas que não interferem em nada.
Os dados são muito bonitos, com detalhes em dourado e prateado, e gostei muito dos marcadores dos podestà na forma do Leão de São Marcos, símbolo da cidade, e que também está nas fichas de controle de área marítima.
Componentes.
Agora, como viciado em História que sou, o que me chamou muito a atenção foi o livreto Venetia Città Nobilissima et Singolare que acompanha o jogo. Nele são apresentados conceitos e contextos históricos para as três eras retratadas no jogo, para as nações rivais (República de Gênova, Império Romano do Oriente, Otomanos, etc.) e para as quatro famílias (Venier, Morosini, Gradenigo e Dandolo), além de textos sobre acontecimentos históricos como a Quarta Cruzada e a Batalha de Lepanto.
O manual e o guia histórico.
Considerações finais
Venetia me surpreendeu positivamente. Há muito eu queria um jogo que tratasse da República de Veneza, mas os jogos que conheci, como Sereníssima, não me atraíram. Este, ao contrário, tinha tudo o que eu esperava e muito mais.
Algumas críticas que vi e li falaram do fator sorte, mas eu discordo. Há, sim, certa sorte envolvida, como no uso de dados e no sorteio de fichas de combate ou pontos de vitória. Porém, essa sorte pode ser mitigada com o uso de estratégia e planos de longo prazo. Particularmente considero que há certa imprevisibilidade no jogo (como as cartas de ameaças, por exemplo), mas não é um demérito, já que obriga os jogadores a se adaptarem e ter sempre um “plano B” preparado e reflete muito bem a conturbada história da região.
Outro ponto positivo, para mim, é a alta interação entre os jogadores. Por exemplo, o custo de influência (representada por cubos de madeira) necessário para abrir certas rotas marítimas ou fundar uma colônia nas regiões mais prósperas ou distantes normalmente é muito alto para apenas um jogador, o que faz com que todos aloquem sua influência naquela região. Neste caso, a chave é tentar ser o mais influente, e assim alocar um podestà (administrador-chefe) de sua família, ou fomentar uma revolta para tomar uma colônia. Algumas cartas também possibilitam atrapalhar os planos de seus oponentes, acrescentando um leve take that ao jogo.
Falando em cartas, as cartas de ações (45 no total) também proporcionam alta rejogabilidade e diversas opções de estratégia, já que a cada partida cada jogador terá opções diferentes à sua disposição que não se repetem com freqüência.
Pontos Positivos
Muito temático, há enorme sinergia entre tema e regras.
Muita interação entre os jogadores.
Arte belíssima e componentes de alta qualidade.
Alta rejogabilidade.
Regras simples.
Ponto negativo
Pode desagradar a jogadores que não gostam de muita interação ou imprevisibilidade
Trilha sonora
Gosta de jogar com trilha sonora? Veja nesta postagem minhas dicas de música para Venetia.
Aviso importante
Minha intenção era escrever apenas uma “primeira impressão” do jogo, mas o texto fluiu e acabou virando uma resenha completa. Embora eu já tenha resenhado filmes, discos (sim, sou dessa época) e livros de RPG, esta é minha primeira resenha de jogos de tabuleiro. Se você achou que faltou algo ou tem alguma crítica, fique à vontade para postar nos comentários.
Tentei caprichar, mas já aviso que eu não tenho a tarimba do Anderson Butilheiro, do Rodrigo Neves, do Sam Slovic, do Carlos Couto, do Emmanuel Deodato e dos meninos do Tábula Quadrada. Então, conto com sua paciência.